A fisicalidade do mundo digital
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Atualizado: há 2 dias

Hoje é fácil imaginar o mundo digital como sendo um universo a parte, um lugar com uma linguagem e uma visualidade própria e facilmente reconhecível. Porém, isso foi uma construção que se deu ao longo de décadas de evolução computacional.
Quando a internet surgiu, ainda dentro das universidades como um sistema integrado de troca de informação, foi necessário criar a linguagem visual que nós reconhecemos hoje de forma tão natural.
Essa transição não foi fácil, no começo computadores eram telas pretas nada amigáveis que dependiam da programação do usuário para executar a tarefa mais simples. Algo taxado como um hobbie “nerd”, para aqueles dispostos a mergulhar horas em manual de instruções e compreender códigos complexos.

Foi com muita pesquisa e o trabalho de designers como a Susan Kare, que desenhou os ícones do Macintosh clássico, que os computadores ganharam o visual amigável que conhecemos hoje.

É claro que esses códigos não surgiram do nada, eles vieram daquilo que já existia e com isso estruturavam o mundo computacional de uma forma similar a como as coisas funcionavam na realidade. Embora no começo esses símbolos fossem assimilações óbvias para quem via, com o tempo eles se converterem em meras abstrações, totalmente distantes do seu significado inicial.
O exemplo mais claro talvez seja o clássico disquete. Os antigos “cartões” de armazenamento de informação deram origem ao simbolo de salvamento dos computadores, mas enquanto os disquetes caíram em desuso o simbolo se tornou por si só um pictograma inegavelmente reconhecido como o botão de salvar.

Porém, esse anacronismo vai muito mais longe, não apenas ícones e nomes do digital são adaptações da realidade, mas a forma como um computador é organizado e pensado remete a maneira como escritórios funcionam nessa época.
“Arquivos” eram móveis literais super pesados que armazenavam “pastas” de papel e continham “documentos” em seu anterior. Bibliotecas lugares reais onde se guardavam livros, filmes e músicas. O wallpaper decorava de maneira física os escritórios com seus padrões. O CC, que hoje denota o encaminhamento de um e-mail é a sigla para “Carbon Copies” as cópias de um documento feitas em papel carbono. Enquanto o botão de “backspace” do teclado nasce do retornar necessário para o carrinho das máquinas de escrever.

No inicio a transição para o mundo digital era uma tentativa de compreender como aquilo iria funcionar e o mais óbvio seria converter o que já existia, “provando” a utilidade prática do digital.
Era comum nos computadores widgets que simulavam o passar de páginas de uma revista, texturas de madeira e programas com interfaces realistas, cheios de gradientes. Para mim o ápice dessa estética eram os desktops decorados como um pequeno escritório, certamente um simbolo desse momento.

Eu sou fascinada por essa transição do mundo analógico ao digital. Foi esse hiperfoco que me levou ao livro “Como Fazer (Quase) Tudo com o Seu Computador”, um calhamaço de 2003 lançado pelo Reader’s Digest, que prometia ser um guia para iniciantes no mundo da informática.

É óbvio que não comprei o livro por módicos R$20 no sebo pensando em sua utilidade prática, (sessões como “Faça Amigos Online” ou “Escreva Cartas Usando o Computador” não são exatamente aplicáveis hoje em dia), mas sim como documento histórico de registro desse momento de transição. Para mim esse livro retrata muito do que foi essa época, dessa construção do imaginário da internet como um lugar próprio e de suas utilidades.
Acredito que não a toa hoje em dia estamos passando por uma onda de nostalgia quanto a internet do começo do século. Existia nesse período um grande otimismo sobre o que seria a internet, um espaço de infinitas possibilidades, onde todo conhecimento estava a um clique.
Com o tempo se perdeu essa noção, principalmente com a popularização do smartphone a internet se tornou um lugar de consumo passivo de conteúdo. Embora é claro ainda exista o conhecimento, a maneira como nós enxergamos a tecnologia, essa esperança e otimismo certamente ficou para trás.

Um grande símbolo disso acredito que seja o abandono da estética “física” nos meios digitais. Com o tempo o digital se distanciou da realidade e com isso construiu uma estética própria, mais objetiva e minimalista, que busca justamente representar o avanço tecnológico frente ao físico.
As texturas de madeira, luzes e sombras se tornaram bregas e ultrapassadas frente a sites e aplicativos clean, onde tudo que importa é a experiência do usuário final. Se possível afastando-o ao máximo da noção de que o espaço digital é uma parte do físico e da natureza ao seu redor.
Eu particularmente entro na categoria dos que sentem falta da antiga internet, não por nostalgia, eu enxergo totalmente suas falhas e limitações. Não me esqueço da lentidão de tudo, a confusão de propagandas nos sites e a facilidade de se conseguir um vírus em qualquer link.
Porém, esse sentimento de democratização e otimismo da internet do começo do século foi algo único, que acho difícil voltar a existir em um momento futuro.
Para fechar esse post eu queria voltar um pouco nessa época e no livro “Como fazer (quase) tudo com o seu computador” porque ele, além ser um registro fantástico da internet dos anos 2000, também trás algumas das imagens icônicas para descrever as funcionalidades de um computador que ilustram muito bem essa conversão de realidades.











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