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A inutilidade encantadora dos adesivos de fruta

  • 29 de mai.
  • 4 min de leitura

Eu me lembro que durante a faculdade o professor apresentou um Ted Talk em sala. No vídeo o palestrante falava sobre adesivos de frutas, aquelas pequenas tags coladas em maçãs, peras e bananas que mostram o produtor e as vezes informações sobre o produto.


O ponto dele era como esse pequeno detalhe nos passava desapercebido. Ao comprar uma fruta tínhamos que tirar o adesivo e jogar fora, muitas vezes ele gruda nos dedos, no saco de lixo ou mesmo cai e acaba preso na sola de algum sapato. O trabalho do designer então seria perceber como esse processo é disfuncional, olhar para onde ninguém mais olhou e propor uma solução. E se ao invés de adesivos usássemos carimbos que dispensam o mini papel e melhoram o nosso contato com o produto?

Um pequeno detalhe fonte
Um pequeno detalhe fonte

Acredito que o vídeo tenha sido muito instrutivo no contexto de uma faculdade. Grande parte do ensino superior na área é focada em entender que design não se trata de fazer layouts bonitos, mas resolver problemas através de pesquisa e metodologia.


É claro que eu não posso discordar dessa premissa. Por mais que a rotina geral como designer tenha mais a ver com diagramação do que com resolver os problemas do mundo, se você não começar sua formação compreendendo como funcionam as etapas de pesquisa e solução é bem difícil conseguir criar layouts bonitos e que façam sentido no futuro.


Porém esses dias eu me peguei pensando nesse Ted Talk. Eu, assim como vários colegas de profissão, comecei a colecionar os famigerados adesivos de frutas, tenho uma caderneta onde colo as etiquetas surrupiadas nos mercados. Com o tempo essa coleção se expandiu para recortes de embalagens peculiares e os mascotes mais engraçados (eu amo mascotes) de vários lugares do Brasil.


Com isso eu percebi que talvez, depois de tantos anos de formada e trabalhando na área, minha lógica de compreender o design e como lido com ele tenha mudado.


O design como campo de estudo é bastante funcionalista, a escola mais referenciada por exemplo é a Bauhaus (não a banda). Um grupo alemão que defendia que a forma segue a função, ou seja, que um objeto deve ser desenvolvido e pensado levando em conta seu uso, dispensando adornos meramente estéticos.


Essa lógica é radicalmente diferente dos produtos feitos até o século XIX, que eram cheios de detalhes decorativos superficiais. Ela é rapidamente adotada como padrão pela indústria, afinal uma cadeira reta e sem adornos é muito mais fácil de produzir do que uma Luiz XV, e se torna a metodologia padrão utilizada até hoje.


Mas eu particularmente talvez seja uma péssima designer, porque eu amo decorativos inúteis. É claro que eu compreendi essa lógica e a aplico no meu trabalho, mas a melhor coisa de entender as regras é justamente subverte-las. Usar a pesquisa, compreender a função, mas entender que o único objetivo de um objeto não é sua utilidade.


Nós como humanos construímos um universo de significados abstratos, conceitos que não seguem nenhuma lógica, mas que nos fazem feliz por motivos puramente pessoais. Eu não posso dizer que sou uma ávida devoradora de textos teóricos de design, no final do dia depois de trabalhar por tantas horas eu acabo preferindo os livros de ficção pra fugir por algumas horas da minha área. Mas um dos melhores volumes que já li foi o conciso “Design para um mundo completo”, um pequeno livro que fala sobre como esse pensamento de “forma segue função” é um jeito no mínimo simplista de entender o mundo (além várias outras coisas).



Uma das frases que mais me marcou nesse livro e que levo comigo até hoje foi


“lixo é tudo aquilo que não tem significado”.


Afinal o que é o lixo? Ele não existe na natureza onde tudo se transforma e nada é desperdiçado, é um conceito criado por seres humanos aplicado a aquilo que não nos tem mais serventia e deve ser descartado (que em alguns casos aplica-se até mesmo até a outros seres humanos).


Um papel de bala então seria lixo certo? Mas e se esse papel tiver sido a bala que a pessoa que você gosta te deu, ou o doce favorito de alguém que você amava e faleceu? Então ele deixa de ser lixo e se torna uma memória, porque agora ele possuí um significado que só é válido para você.


E agora eu volto aos adesivos de fruta, sim eles são lixo inconveniente, que gruda no dedo e adicionam etapas desnecessárias, mas também representam a pessoa que produziu aquilo e são uma memória tátil de que as coisas não nascem do nada. Alguém plantou aquela comida, empacotou, transportou e desenhou aquele adesivo, aquilo é a parte humana de um produto no ambiente estéril do supermercado.


Mas esse texto não é sobre adesivos de fruta (embora eu ame todos eles) que no final são apenas mais lixo para o planeta e talvez devessem sim ser repensado por outros motivos, mas sobre pensar design de um jeito mais sentimental. Entender que a função de algo não é apenas seu uso prático cotidiano, mas também o que aquilo representa, que talvez os detalhes não sejam inúteis, mas o que faz as pessoas se identificarem e se conectarem com ele.


Os projetos mais legais que eu fiz foram os que envolviam uma camada a mais de história. Não somente o branding criado por uma equipe de marketing em uma reunião interminável, mas projetos para pessoas reais que traziam consigo toda sua bagagem e por isso queriam transmitir ao seu público esse olhar.


É claro que cada profissional vai abordar seu método de uma maneira, mas hoje eu entendo que a forma como eu gosto de enxergar minha profissão é nesse lugar de compreender e traduzir visualmente conceitos que vão muito além a função, mas mexem com o sentimento e a cultura de um lugar.




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