Groselhas sobre um ano de nomadismos pelo Brasil
- favettagiovanna
- 23 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 28 de dez. de 2025

Chegando final do ano e estamos próximos de completar um ano vivendo como nômade digital pelo Brasil. Em janeiro estávamos na nossa casa em Bertioga pintando um prédio no Sesc, encaixotando nossa casa e organizando as malas pra iniciar a viagem. Em fevereiro fizemos nossa primeira parada em Florianópolis e logo voltamos para São Paulo para pintar empena de um prédio na Av. Consolação na semana mais surreal da minha vida.
A partir daí cada mês foi passado trabalhando online em uma cidade diferente, cada qual com seu sotaque, sua mobília, sua senha de wi-fi e uma vista diferente da nossa mesa. Porém, todas com som de makita em algum momento, porque a makita é inevitável.
Seria impossível descrever o que foi esse ano em um texto, nem mesmo a série de diário de viagem do blog dá conta desse trabalho, por isso ele vai ser um apanhado da vida nômade, aprendizados, surpresas e curiosidades viajandísticas.
Descobertas a cada esquina
Acredito que muitos são os motivos que fazem as pessoas quererem viajar. Descansar na beira da piscina durante as férias, conhecer pessoas novas ou mesmo tirar selfie pro Instagram (ok esse último talvez eu nunca consiga entender).
Mas pra mim, particularmente, o que me fez começar essa viagem e o que faz ela valer a pena são as descobertas. Eu sempre amei pesquisar, na internet passava horas caindo em limbos sobre assunto que eu não fazia ideia da existência, colecionava textos, imagens, vídeos e me debruçava as três da manhã em blogs obscuros.
Então viajar é o ápice dessa serotonina de descoberta que eu desenvolvi ao longo da adolescência trancada no meu quarto. Mesmo conhecendo apenas o Brasil cada nova trilha, cidade, parque e museu me abrem um mundo novo.
Ao longo desse ano eu descobri por exemplo que existe um universo extenso de balonismo no Brasil, que Curitiba é o paraíso do garimpo de velharias e dos museus, que Mangaratiba tem um trem que entra no mar e que a região dos lagos é cheia de salinas históricas, e muitas outras coisas.

Fiz um arquivo enorme de fotos que tirei com minha câmera velha, textos sobre cada cidade e comecei uma série de fontes com base nas tipografias que registrei pelo caminho.
Mas além essas grandes descobertas uma coisa mais difícil de transmitir são as pequenas. É o gosto das frutas de Teresópolis, o filtro amarelado que cobre tudo em Minas Gerais, a imensidão das dunas de Florianópolis, a esfiha incrível daquela padaria de Torres e a forma como a luz refletia naquele velho apartamento de São Leopoldo.
Essas sensações ficam com a gente e sei que mesmo no futuro distante elas ainda vão estar lá conosco.

O imprevisível acaba sendo a melhor parte
É engraçado, mas em um ano de viagem eu não tenho muitas histórias impressionantes pra contar. Acredito que seja porque as melhores histórias envolvem perrengues inacreditáveis e a realidade é que eu sou neurótica com organização, o que evita de nos metermos em várias enrascadas (e bastante sortuda, é verdade).
Aqui no blog mesmo já fiz uma lista detalhada de preparação de viagem, falando de tudo a se pensar antes mesmo de começar a vida nômade. Um dos mais marcantes talvez seja a lista de lugares a visitar.
Claro que eu tinha marcado uma quantidade razoável de locais que queria conhecer ao longo desse ano. Consegui ir em vários deles, alguns superaram as expectativas como Florianópolis, outros foram bem decepcionantes (sim Ouro Preto to falando com você).
Mas sinceramente a melhor parte do trajeto foi o que encontramos pelo caminho. Eu gostei de conhecer as cidades históricas de Minas, mas o inesquecível mesmo foi a Trilha na Serra de São José entre São João del Rei e Tiradentes. Foi ver as falésias de Torres, as pedreiras de Curitiba e o nascer do sol na Pedra da Tartaruga em Teresópolis.
Nada disso estava nas trends do TikTok ou nas listas de viagem, são lugares que você só descobre chegando lá, conversando com locais e vasculhando no Google Maps ponto a ponto. Garanto que esses tendem a ser os mais únicos e interessantes.

Tudo o que faz falta
É claro que eu amo viajar 😀 (insira aqui um adesivo brega), mas longe de mim romantizar a vida nômade como fazem os influencers. Mesmo viajando somente pelo Brasil, o que me livra de vários inconvenientes da viagem internacional, muita coisa ainda é problemática e cansativa.
Primeiro que ser nômade é sim bastante solitário, ok pra mim isso não faz muita diferença, já que sempre fui algo próximo a um eremita, mas via de regra suas conexões sociais se resumem a contatos online.
É claro que é possível conhecer pessoas ao longo da viagem, principalmente se você for extrovertido o que não é meu caso, mas esses contatos são passageiros e na próxima cidade provavelmente serão perdidos. Então viajar constantemente é inevitavelmente um exercício de solitute.
Outra falta enorme durante a viagem são suas coisas. Por mais desapegado que você seja é de uma enorme resiliência precisar se adaptar todos os meses a uma nova mobília, escrivaninha e cozinha. É inevitável acabar os dias com manchas roxas nas pernas por esbarrar em móveis em lugares diferentes e quebrar copos tentando apoiá-los em mesas inexistentes.

Como eu comentei no post “Uma orquídea perdida e o eterno pós festa geracional” viajar era sim um velho desejo meu, mas também foi uma solução pra um incomodo pessoal em viver de aluguel. Afinal se trabalhamos online e somos obrigados a pagar aluguel, porque se tornou impossível comprar uma casa, por que não viajar?
Ainda assim uma casa faz uma falta imensa, principalmente nos dias que estamos exaustos e tudo o que queremos é nossa cama, nosso quarto, nossas coisas no lugar onde deixamos elas e a paz que apenas nossa casa nos traz.
A realidade de um nômade é que não há pra onde voltar, não existe o lugar seguro ou o canto pra desfazer as malas e onde tudo vai estar no seu lugar. Tudo é uma constante mudança e esse é o objetivo.
Existem dias sim onde isso é esmagador e cansativo demais, mas o que me ajuda nessas horas é imaginar o nomadismo como uma jornada. Vão ter momentos bons, ruins, emocionantes, tristes e fantásticos, mas acima de tudo é algo finito. Muitos vendem a vida viajante como uma realidade única, um modo de vida a ser seguido até o fim, acredito que para alguns essa seja uma resposta, mas ao menos pra mim ela é um período finito.
Eu quero no futuro ter uma casa onde eu possa plantas árvores, espalhar o que coletei ao longo da viajem, pendurar minhas fotos, guardar meus discos e catalogar meus livros. Assim vou saber que tudo valeu a pena.
O Brasil é imenso, imenso mesmo
Durante esse ano nós estivemos em 6 estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), 24 cidades com uma média de duas por mês e 17 hospedagens. É verdade que nosso estilo de viagem é mais lento por conta do trabalho, porém eu me orgulho de ser uma excelente organizadora de passeios, cada tempo livre foi devidamente manejado para fazermos trilhas, conhecermos parque, praias, mergulhar, garimpar e muito mais.
Mesmo com toda essa logística ao longo de um ano não chegamos nem perto de conhecer esses estados por inteiro. Claro que através disso conseguimos entender cada lugar de forma muito mais profunda, um conhecimento que só 10km de trilha e conversas com pessoas em rodoviárias te proporciona, mas estamos a anos luz de realmente ter visto tudo o que há para ver.
Outra realidade que fica escancarada é a completa ignorância que o brasileiro tem quanto ao próprio país. Talvez pelo seu tamanho descomunal e pela imensa variedade de povos e culturas que nós entendemos como sendo Brasil, o brasileiro tende a acreditar em clichês regionais sem nunca ter posto os pés em outras cidades. Cansamos de ouvir máximas que se mostraram totalmente equivocadas quando realmente conhecemos aqueles lugares.
Viajar pelo Brasil é um misto de imensa revolta e de um deslumbramento sem tamanho, ambos em constante equilíbrio. Se ao mesmo tempo descobrimos uma das paisagens mais lindas e surreais que já vi na Serra da Gandarela, região metropolitana de Belo Horizonte, sabemos que a Vale está ali ao lado sempre tentando destruir tudo. Se vemos a imensa reserva de Mata Atlântica que vai de São Paulo ao litoral do Paraná, sabemos que ela é uma fração do que sobrou e que existe muita luta pra ela se manter em pé.
A realidade é que fazer o clássico “Eurotour” é muito mais fácil, lá é tudo muito próximo, organizado e preservado. Mas é viajando pela América Latina que se entende de onde veio essa fartura, tudo isso se construiu em cima das nossas riquezas, da nossa natureza, do nosso povo. E mesmo que a colonização tenha terminado a mais de 100 anos as mesmas famílias seguem extraindo as riquezas pra benefício próprio e a mentalidade colonizadora é entranhada de um jeito que ninguém percebe.

Por isso viajar pelo Brasil é pra mim um ato de revolta no final, apreciar apesar de tudo o que esse país tem é dizer que eles não levaram tudo, que ainda podemos reconstruir, que ainda há muito o que conhecer e valorizar.






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