Studio Ghibli e o poder de se enxergar beleza em meio ao caos

Recentemente aconteceu o Ghibli Fest, um evento que traz os filmes do estúdio de volta as salas de cinema de todo pais. Eu sou apaixonada por praticamente tudo do Ghibli e fiz uma maratona de sessões pra conseguir assistir meus favoritos. Embora eu já tenha visto a maioria dezenas de vezes foi super emocionante poder acompanhar essas obras do cinema, em tela grande e com aquela imersão que só uma sala escura isolada do mundo nos proporciona.
Me lembro a primeira vez que assisti algo do estúdio, estranhamente foi na escola (eu devia ter 12 ou 13 anos na época). Em uma aula vaga onde um professor havia faltado nos levaram até a sala de informática e colocaram um filme pra ocupar aquele período, por algum motivo misterioso o filme escolhido foi O Castelo Animado. Eu me lembro de os créditos subirem e de ter sentimentos contrastantes, não sabia exatamente se tinha gostado, parecia que aquilo era tão diferente de qualquer coisa que eu já havia visto que meu cérebro não sabia bem o que fazer.

Anos depois eu revi Castelo Animado e re-assisti várias vezes depois disso. Pra cada uma dessas vezes eu estava em um momento da minha vida e em cada momento o filme me soou diferente. É como se ele crescesse comigo e amadurecesse assim como eu amadureci. Dessa última vez eu revi ele depois de um ano de mochilão pelo país, passei por lugares que me lembravam muito os cenários do Ghibli e ao rever me senti voltando aquele momento. Agora eu reconhecia a forma como o sol refletia no mar, o jeito como o vento bate na vegetação de um campo e os insetos voando em plena primavera, eu enxerguei na vida real aquilo que o Ghibli captura de forma tão magnífica em seus filmes e isso só me fez amar ainda mais esse universo.

Eu sou uma admiradora incondicional do Miyazaki, além ser um contador de histórias excepcional ele tem uma visão do mundo extremamente sensível. Seu maior talento é perceber os detalhes, capturar o calor de um abraço, a sensação do vento no rosto e a delicadeza de ovos com bacon.
O irônico é que embora tenha se convencionado enxergar as obras do Ghibli pelas suas cenas belas, grande parte de seus filmes são sobre momentos de tensão. Guerras, mortes e destruição ambiental são temas recorrentes, ainda assim ele é muito mais lembrado pelos breves instantes de paz entre o caos ao redor. É justamente nesse paradoxo que mora o maior mérito de suas obras, em perceber a beleza das mínimas coisas em um mundo de dor, notar que a natureza é mágica e fantástica e que uma breve refeição pode significar tudo.
Em Nausicaa por exemplo eles vivem em um mundo pós-apocalíptico, a humanidade destruiu tudo e agora fungos jogam esporos tóxicos na atmosfera. As poucas comunidades humanas sobreviventes estão em uma luta constante, tentando resistir nesse ambiente hostil, enquanto insetos gigantes e impérios decadentes são uma grande ameaça. Se essa história fosse contada da maneira mais convencional se trataria de um épico, sobre heróis, guerra e uma luta contra monstros, mas aqui ela ganha uma roupagem totalmente diferente.
A primeira cena é a protagonista caminhando pela floresta de cogumelos tóxicos, usando uma máscara para se proteger de seu veneno. Seria de se imaginar uma cena de ação onde ela luta com insetos e corre pela vida, mas é justamente o contrário. Nausicaa é fascinada por aquele lugar, ela caminha no seu tempo, se conecta com o mundo ao redor, se deita entre os esporos e observa.

Esse contraste fica ainda mais evidente quando vemos essa história sendo contada por outras lentes. Em 2023 foi lançado um fan filme em live action de Nausicaa, a obra é impressionante, ela traz para a realidade os cenários, personagens e criaturas do filme de forma incrivelmente fidedigna, Porém, por mais fiel que o curta seja existe algo faltando, um respiro, calma, leveza, a sensação de que aquele não é um lugar hostil, mas onde ela se sente em casa.

Essa calma permeia os filmes do estúdio, ela dita o ritmo e a conexão com tudo ao redor. Cada gesto, cenário e ação são pensadas para refletir essa sensação de completude, da ligação do personagem com seu ambiente e com seu mundo, de seus sentimentos e inquietações.
Ẽ justamente esse sentimento único que tornam os filmes do Ghibli tão memoráveis e amados por tantos. Porém o capitalismo, é claro, se aproveita dessa fama imensa, como já diria Marx ao transformar tudo em um produto o capital os esvazia de sentido. Converter a obra do Ghibli em mera estética vai de encontro a tudo que seus filmes pregam, apaga a mensagem de conexão com as pessoas, com a natureza e a apreciação do silêncio. Eles foram feitos para serem absorvidos com a calma devida e, porque não, crescerem conosco.
Hoje enxergo o quanto a minha visão de mundo foi moldada pelos filmes do estúdio. Com ele aprendi a observar, me conectar e respirar, entendi que mesmo no meio do caos a natureza resiste. Foi provavelmente meu primeiro contato com muitos dos princípios do que hoje entendo como Solarpunk, a ideia de que podemos nos integrar a natureza e não salvar o mundo, mas causar um impacto positivo ao nosso redor, porque mesmo com tudo desmoronando, ainda existe beleza.







Comentários