Talvez eu goste de limpar a casa
- há 5 dias
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Recentemente eu entrei em uma daquelas conversas de adulto sobre “facilidades de casa”. Eu por exemplo não canso de recomendar o meu processador manual que tanto ajuda na cozinha e o escorredor de parede que não deixa água empossar na pia, mas um dos assuntos mais recorrentes nessas discussões é certamente o famoso aspirador robô.
Bolachão, aspirador inteligente ou como você preferir chamar, é a revolução da limpeza do jovem adulto. Um pequeno dispositivo que pode ser programado pra aspirar, varrer e até passar pano na casa no horário de preferência, uma modernidade comparada a Rosie, empregada robô de os Jetsons, O aparelho é tão amado que ganha ares antropomórficos com seus donos lhes atribuindo personalidades, nomes e sentimentos (como é contado nesse excelente episódio de Rádio Novelo).
Porém, por mais que eu ache os robozinhos simpáticos e úteis, não sou adepta de sua facilidade. Antes de começarmos a viajar e nossa vida virar um eterno episódio filler de anime, eu tinha uma rotina consistente de limpeza doméstica. Trabalhando em home office a gente habita a casa de um jeito diferente, enquanto o normal seria sair logo de manhã e voltar apenas a noite, ficando somente no fim de semana, acabamos ocupamos aquele espaço 24h por dia, muitas vezes 7 dias por semana. Esse fator distorce um pouco as dinâmicas organizacionais e fazem a gente se adaptar.
Temos mais tempo pra limpar, lavar a roupa e cozinhar com certeza, mas essas tarefas também acabam se tornam uma constante. Se antes era necessário se preocupar apenas com a janta, agora planejamos todas as refeições do dia, o que inclui idas as mercado, cardápio e muita louça. A organização em si também acaba mudando, na correria do trabalho muitas vezes acabamos deixando de lado a roupa que precisa dobrar, as cobertas desarrumadas e as compras pela casa.
Com os anos a gente se acostumou a essa constante e precisamos construir uma rotina em função da arrumação, afinal eu ao menos acho impossível trabalhar direito em uma casa caótica. Meu dia geralmente começa pela organização, logo depois do café da manhã vejo tudo que precisa ser feito, limpar a cozinha, tirar o lixo, lavar as frutas etc. Enquanto na manhã de sábado deixávamos para a limpeza pesada, eu lavava o banheiro, ele esfregava o fogão, tirava o mofo das paredes da nossa casa ridiculamente úmida e depois de duas horas tínhamos tudo cheiroso e limpo, a medida do possível para quem morava em cima de um pântano.
Esses tempos comentei minha rotina de limpeza com a minha tia e ela me respondeu horrorizada que amava seu aspirador robô e jamais dedicaria um fim de semana a limpeza. Isso me fez pensar que na realidade eu gostava dessas horas. Levantar na calma da manhã e deixar tudo em ordem me ajudava a colocar também a minha cabeça no lugar pra começar o dia, enquanto dedicar algumas horas no final da semana pra limpeza junto com o Mayke enquanto ouvimos música acabava sendo divertido no fim das contas.
É claro que eu não tenho filhos e nem animais de estimação com um imenso casaco de pelos, então essa arrumação acaba sendo bem mais simples, quando eu limpo a casa ela permanece limpa até eu suja-la de novo. A realidade é que esse sistema de trabalho + cuidados da casa foi pensado para uma dinâmica de marido e esposa, ele trabalha, ela cuida de todo resto. Porém com a entrada das mulheres no mercado de trabalho o que acabou acontecendo foi um enorme acúmulo de função que deixa mulheres exauridas e muitos homens achando que ainda vivemos na década de 60.
A solução do capitalismo para isso foram as revoluções nos eletrodomésticos como micro-ondas e aspirador automático, ou mesmo uma empregada, alguém paga para executar uma função que deveríamos ter tempo de executar.
Tudo isso me faz pensar no quão cruel é essa dinâmica de um sistema que nos vende que devemos escantear tarefas básicas como limpeza e cozinhar em função de horas a mais de trabalho. Pois é claro que essas revoluções não vieram para termos tempo para descansar, mas sim para podermos dedicar cada vez mais horas produzindo, para comprar mais eletrodomésticos úteis, que vão nos dar ainda mais horas, para produzimos mais ainda...
Esse texto não é uma carta de ódio aos bolachões ou as faxineiras (embora eu ache toda a dinâmica social envolvida com empregadas domésticas complicada). Mas uma reflexão sobre como essas tarefas básicas são vendidas pelo capitalismo como algo banal que precisa ser terceirizado para “aproveitarmos mais a vida” (produzir).
Para mim a rotina ideal é aquela onde eu consigo trabalhar e ainda tenho tempo de cozinhar (eu só sei fazer bolo, quem cozinha mesmo é o Mayke, mas vocês entenderam), limpar minha casa, cuidar do jardim e terminar o dia sem me sentir completamente esgotada e exaurida. O home office foi o que me trouxe essa imensa qualidade de vida, é um enorme privilégio poder usar meu tempo em função de melhorar meu ambiente e cuidar daquilo que é importante pra mim. O trabalho deveria servir pra melhorar nosso cotidiano e não sugar totalmente nossa energia não deixando espaço para mais nada.





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