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Movimento offline, mas ao contrário

há 1 dia
4 min de leitura

Nos últimos tempos tem feito muito sucesso no cyberespaço a moda/trend/assunto do offline. Ele trata de postagens, textos e vídeos que falam de desligar um pouco o celular e viver o mundo sem o intermédio de uma tela, algo que soa definitivamente irônico de se compartilhar nas redes sociais.

Quem falou um pouco sobre o assunto esses tempos foi a Nazura em seu ótimo texto “será que o movimento offline está virando a nova welness?” que aliás faz total sentido. 

Porém, eu não estou aqui pra criticar o movimento offline, inclusive sou uma ferrenha defensora. Eu amo andar pela cidade atrás de coisas bizarras, fazer trilhas e ir no último show de velhinhos lendários. Se possível nesse período esquecendo que no mundo lá fora existem bilionários torrando o PIB de paises inteiros para que nerds possam conversar com suas namoradas de IA. A cada luz de celular que é aceso no cinema pra alguém rolar um feed genérico uma parte de mim morre. 

Pois feito esse preâmbulo o texto de hoje não é sobre o movimento offline (se o que você precisa pra sair um pouco, tomar sol e tocar na grama seja entrar no instagram e dizer que está fazendo tudo isso por favor poste). Mas talvez sobre o contrário.

A utopia colaborativa

Imagem escaneada do livro HELP - Sistemas de Consulta Interativa, um guia do estadão sobre informática. Ele resume bem a ideia que os anos 2000 tinha sobre o que poderia ser a internet
Imagem escaneada do livro HELP - Sistemas de Consulta Interativa, um guia do estadão sobre informática. Ele resume bem a ideia que os anos 2000 tinha sobre o que poderia ser a internet

A realidade é que eu amo tecnologia, então por mais que eu curta estar offline, pra mim construir um online saudável é tão importante quanto. Eu cresci na internet, em uma época onde ainda havia esse ideal ilusório dela construir um futuro democrático e legal pra todo mundo. 

Agora isso pode parecer um sonho febril de um passado remoto, mas já ouve um tempo onde a grande maioria das coisas na internet eram feitas pela comunidade. Desde projetos complexos de papercraft, páginas de blogs, artigos de enciclopédia e softwares livres.

É claro que desde o começo havia grandes empresas lucrando e essa ideia que a internet podia dar dinheiro sempre esteve presente. Mas por um curto período houve uma imensa comunidade online de pessoas que voluntariamente doavam seu tempo e seu trabalho em prol de um sistema que se retroalimentava. 

Essa cultura foi se perdendo por uma série de motivos. Desde essas pessoas conseguindo trabalhos em tempo integral, até as inúmeras vezes que empresas se apropriaram desses projetos voluntários em creative commons pra lucrar em cima (como foi o caso mais recente do spotify).

Obviamente esse sonho morreu, mas na verdade também, ele passa bem. A internet é sim muito diferente ao que era, mas escondido em foruns e recantos obscuros do reddit ainda existem pessoas que lutam por esse lugar. Sejam os heróis do VLC que recusaram propostas milionárias pra poder manter o software livre, até a wikipédia que se tornou um reduto do conhecimento colaborativo. 

 

O perigo do mundo das fadas 

Ilustração do livro Mr. Norrell e Jonathan Strange fonte
Ilustração do livro Mr. Norrell e Jonathan Strange fonte

No artigo “Your Phone Isn’t a Drug. It’s a Portal to the Otherworld” no The New York Times a autora Katherine Dee compara o mundo digital com a terra das fadas da mitologia inglesa. Um local mágico que você tem acesso através de um portal. Ele pode te trazer inúmeras alegrias e felicidades, mas ao mesmo tempo se você não tiver algo que te prenda a realidade vai acabar ficando lá mais tempo do que deveria e nunca mais vai conseguir retornar.

Essa alegoria foi a melhor descrição que já vi sobre tecnologia, ou ao menos a maneira como eu a enxergo. Muito se fala do digital como um vicio, algo que deve ser evitado a todo custo e pode ser incrivelmente danoso (o que é real). Porém, o problema é que esse discurso demoniza a internet como um todo, e eu não acredito que ela seja ruim, mas sim que é um “mágica” tão poderosa que precisa ser utilizada com cautela.

É só quando a gente entende como o processo funciona e sabe lidar com ele é que podemos navegar por esses mares de maneira segura. O que hoje em dia consiste em saber equilibrar as horas online e nele procurar espaços que ainda mantém o objetivo inicial dessa tecnologia de se conectar a outras pessoas.

Grande parte do meu tempo online nos últimos anos tem sido uma tentativa justamente de buscar por esses locais. Áreas virtuais que fogem da hegemonia das grandes empresas e onde ainda sobra espaço pra discussões interessantes, conversas improváveis, hiper focos não monetizados e conexão com todo tipo de assunto. 

 

Também é importante construir

Além a mera busca por lugares de conexão, também é muito importante colaborar pra manter essas comunidades. Isso pode ser muitas coisas, moderar uma página, apoiar pequenos blogs, editar a Wikipédia, fazer doações a desenvolvedores independentes ou disponibilizar ítens em creative commons. 

Da minha parte não posso me declarar exatamente uma anarquista digital, infelizmente ainda dependo imensamente das grandes plataformas e não consegui me render ao linux, mas eu tento dar os meus centavos para que a internet seja mais legal.

Com o tempo fui tornando meu site, que começou como um portfólio na minha casa virtual. Um lugar onde tenho total liberdade pra pintar as paredes, trocar o piso e mudar todos os móveis de lugar sem me preocupar com o locatário, digo com o algoritmo. 

Comecei montando meu blog o Groselhas e sua newsletter. Pode parecer bobo, mas simplesmente ter um espaço livre pra falar dos meus processos e interesses já foi um passo enorme e que mudou muito minha relação com a internet. 

Já um passo mais avançado (e que demanda mais tempo) foi disponibilizar aquilo que crio no meu tempo livre de forma gratuita. Sejam minhas fotos no Pexels, o repositório de links e o Tipografia Vernacular 0800. Cada um desses projetos são minha tentativa de recriar, mesmo que só um pouquinho, a internet que conheci na minha adolescência. Onde era possível ter acesso a tanta coisa legal e criativa sem assinaturas e videos publicitários em cada canto.

Gosto de pensar que ao menos ali no meu cantinho criei um ponto de apoio seguro pra quem está viajando na hostil terra das fadas. 

Acho que lá no fundo, em um cantinho bem escondido, ainda sobra em mim um pouco dessa esperança. Eu ainda enxergo a tecnologia como uma maneira (dentre muitas) de descobrir o mundo.

 



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