Um mês de mar panorâmico em Mangaratiba
- favettagiovanna
- 12 de jan.
- 9 min de leitura
Atualizado: 12 de jan.

Essa é a série onde eu falo das minhas experiências nas cidades que passei vivendo como nômade. Não é um guia, nem um review, mas um pouco do que fiz no tempo que passei em cada lugar e minhas impressões sobre ele, além algumas dicas de sobrevivência.
Depois de um Outubro salgado em Arraial do Cabo e de uma semana de organização em São Paulo, seguimos viagem para a Costa Verde do Rio de Janeiro, onde passamos um mês na cidade de Mangaratiba.
Mangaratiba é a vizinha menor de Angra dos Reis. Ela é rodeada por uma belíssima Mata Atlântica, cercada de ilhas e atravessada por um trem de minério que entra mar a dentro até uma ilha-porto.
Chegando lá nós finalmente tivemos a sensação de que estávamos na "tela de praia", aquele nível dos jogos dos anos 2000 com um cenário tropical cheio de palmeiras.

Nosso Airbnb desse mês foi uma casinha encarapitada na encosta de um morro com uma vista panorâmica pra baia. Eu amo o mar, então a oportunidade de ter uma vista do litoral a qualquer momento do dia é incrível, só essa sacada já compensou totalmente nossa passagem pela região.

Sobre a cidade
Mangaratiba é pequena, mas bem simpática. A natureza é sem dúvida a protagonista, a Serra do Piloto emoldura a paisagem e a Mata Atlântica ocupa surpreendentes 70% do território da cidade.
Para chegar a cidade de ônibus existem duas opções
A empresa Costa Verde faz o trajeto, porém os ônibus só tem uma saída por dia em horários horríveis.
Outra opção é ir usando o sistema de transporte intermunicipal. Próximo à rodoviária Novo Rio pegar o ônibus 112b Itaguaí - Central, chegando na Rodoviária de Itaguaí pegar o 122T Itaguaí - Mangaratiba. Ambos aceitam RioCard e o trajeto fica em torno de R$30.
Já no centro de Mangaratiba o transporte é um pouco complicado. O transporte interno da cidade é majoritariamente feito por vans particulares, cujos valores variam de R$5 a R$8 dependendo da localidade. Os motoristas são bastante solícitos, aceitam dinheiro, pix e alguns até o RioCard, mas as vans tem poucos lugares e muitas vezes vão lotadas e passam direto pelo ponto
O Uber seria outra opção, porém poucos motoristas atendem a região. Ouvimos reclamações quanto ao excesso de multas no centro, o que faz com que a maioria prefira atender outras cidades. Por isso nem sempre o sistema encontra um carro disponível e o tempo de espera é bem grande.
Sobre cultura Mangaratiba tem uma infraestrutura cultural bem interessante para o seu tamanho modesto. Ela infelizmente não possuí um cinema, mas tem uma biblioteca, um centro cultural e um ótimo museu localizado em um antigo solar restaurado.
Já sobre alimentação, infelizmente comida é sempre um ponto complicado no litoral. Nossa hospedagem era próximo ao centro da cidade, mas por alguma razão nos arredores não tinha um mercado bom, só vendas de bairro cheias de coisa estragando.
Porém, quando rodamos por bairros mais distantes como Itacuruçá e Muriqui encontramos sacolões e mercados maiores, parece que só o centro tem essa falta crônica de comida de qualidade por algum motivo, talvez por ser majoritariamente composta de casas de veraneio.
Esse mês também pegamos muita chuva. Como é de praxe na Mata Atlântica raros são os dias de tempo estável, por isso muitos dos passeios que planejei acabaram frustrados por fins de semana cinzentos. Ainda assim, conseguimos aproveitar muito do que a cidade tem a oferecer, segue um pouco do que fizemos por lá durante o mês.
Centrinho
O centro em si de Mangaratiba é bastante modesto.
Por lá fica localizado o Museu Municipal da cidade que eu recomendo muito a visita. Nós escolhemos uma manhã de quarta-feira pra conhecer o centrinho e acabamos nos juntando a uma excursão escolar pelo museu, onde um tour guiado apresentava a história da cidade, incluindo a importância que indígenas e pessoas escravizadas exerceram nessa construção.
Uma forte crítica que tenho a maioria dos museus históricos que visitamos é o apagamento dessas vidas frente a lógica colonial e presenciar um local que registra e repassa essa realidade foi uma grata surpresa.
Próximo do museu também recomendo visitar a Matriz Nossa Senhora da Guia, uma linda igreja do século XIX em estilo Rococó e com o interior muito bem preservado.

Em frente à Igreja fica a bilheteria e o cais de onde parte a balsa pra Ilha Grande e passeios de barco pela região.
Ilha Grande
Ilha Grande pertence a cidade vizinha Angra dos Reis e a distância até lá é considerável. A balsa é o único transporte público disponível, o trajeto leva em torno de 2h e custa R$20,50 o trecho. Outra opção bem mais rápida são os Taxi bolts, mas a viagem não sai por menos de R$60 por pessoa.
No dia que fomos a barca estava bem lotada, chegamos 6:40h e já tinha fila para comprar a passagem. Escolhemos um sábado, mas esquecemos se tratar de um feriado, o que acredito pode ter aumentado o número de turistas.
Estranho pensar isso, mas mesmo com nossos 10 meses de viagem, acho que Ilha Grande foi um dos lugares mais turísticos que visitamos. Durante a organização de roteiro sempre tento me afastar dos pontos extremamente movimentados, porque nosso lado antissocial fala mais alto. Nesse caso fizemos uma curta passagem pelo centrinho da ilha, que conta com restaurantes, pousadas e lojinhas. Admito que o fluxo enorme de turistas me deu um pouco de falta de ar.
Ilha Grande é um local extremamente preservado e conta com um excelente complexo de trilhas bem demarcadas, porém sua geografia é cheia de morros, o que torna grande parte das trilhas de alta complexidade. Por isso indico para quem quiser fazer somente um bate e volta com a balsa seguir a trilha da Cachoeira da Feiticeira, ela começa na Vila de Abraão e segue por cerca de 4km (de muita ladeira, então vá com folego) até a cachoeira, passando por diversas ruinas e belas paisagens.

Apenas fique atento ao retorno, a balsa tem somente 1 horário por dia, ela sai as 8h de Mangaratiba e as 17:30h de Ilha Grande e dependendo da demanda pode esgotar, por isso chegue cedo.
Também recomendo fortemente, a quem quiser fazer somente um bate e volta, ir no sábado. Embora na ida a balsa tenha partido com sua lotação máxima, no retorno ela estava vazia. Acredito que a maioria dos turistas escolha pernoitar na ilha pra aproveitar melhor o passeio, por isso acredito que a volta no domingo deva ser caótica.
Itacuruçá
Outra ilha que visitamos durante nossa estádia foi a de Itacuruçá, está ainda pertencente ao município de Mangaratiba.
Eu particularmente só conhecia Itacuruçá por um dos geniais "erros de gravação" de Monstros S.A, porém ela é um destino de praia muito comum aos cariocas e devo dizer que eles tem um excelente gosto, porque as paisagens são incríveis.

Escolhemos um dia milagrosamente limpo e ensolarado pra visitar a região (um pouco pra fazer jus ao meme, admito). Pegamos uma van até o cais de Itacuruçá e de lá contratamos um Taxi bolt. A ilha fica bem próxima ao continente e não tem opção de barca municipal, porém os taxi bolts tem preços razoáveis e é possível escolher qual praia desembarcar, com valores referentes a distância de cada uma.
Nosso plano era percorrer uma das trilhas, por isso pedimos um barco até a Prainha. A partir dali seguimos pela costa sentido Flexeiras, acompanhando um trajeto do Wikiloc e conhecendo as praias pelo caminho.
A ilha é realmente muito bonita, com uma natureza intocada, porém infelizmente grande parte da costa é ocupada por mansões de veraneio que invadem a areia, o que torna a caminhada algo similar a um jogo de plataforma e impossível na maré alta.
Praia do Sahí
Próximo de onde nos hospedamos fica a Praia do Sahí, que fomos conhecer a pé em um domingo nublado. Ela é uma pequena extensão de areia rodeada por vegetação nativa, onde acontece o desague de um rio e pássaros de várias espécies aproveitam pra fazer um lanche.

As paisagens são muito bonitas, eu particularmente não iria somente pra curtir o dia de praia pela quantidade massiva de pernilongos. Porém, o que mais nos chamou a atenção foram ruinas escondidas em meio a vegetação. Nesse caso surpreendentemente uma placa indicava que ali existiram diversas casas e igrejas de senhores ricos do século XIX e segundo registros também ali aconteciam os terríveis leilões de escravos.
A região da Costa Verde era uma área amplamente utilizada para o desembarque de pessoas escravizadas ao Brasil. Na restinga de Marambaia por exemplo, onde hoje se localiza um quilombo e uma área militar, pessoas trazidas da África eram levadas aos chamados "engordas", onde eram alimentadas para torna-las mais valiosas nos leilões.
É claro que a Costa Verde é magnifica, mas pra mim visitar a região e ignorar todo esse histórico é esquecer que essas pessoas existiram. Temos sim que contemplar a beleza que é esse pais, mas sempre lembrando em cima de quem ele foi construído.
Parque Cunhambebe
Próximo à praia do Sahi fica a entrada para o Parque Municipal Cunhambebe, em uma rua de casas localizada atrás do shopping Sahi. O parque tem enorme importância ambiental, pois protege as nascentes dos principais rios que abastecem a região, além servir de reserva para diversos animais e plantas ameaçados.
Escolhemos seguir uma trilha que subia um vale na Serra do Piloto até um mirante com vista para o mar. O caminho é uma subida bem cansativa, é tecnicamente fácil, mas as pedras são bem escorregadias mesmo sem chuva, então recomendo cuidado.
Ainda assim a trilha vale muito a pena, fotografamos dezenas de besouros interessantes e demos um mergulho ótimo no Poço das Borboletas. Apenas levem repelente.

Trem de Mangaratiba
Esse não é exatamente um passeio, mas foi uma das coisas que mais nos entreteve na cidade. O trem de Mangaratiba leva minério da Vale até um porto localizado em uma ilha.
A casa onde ficamos era diretamente em cima dos trilhos, então várias vezes por dia víamos a passagem do trem lá em baixo, o que eu achava muito reconfortante. Além o surrealismo do trem indo até a ilha, que me lembra algo saído da Viagem de Chihiro.
Antigamente a mesma linha era utilizada também para transporte de passageiros, o que garantia uma vista magnifica da região e certamente resolvia os problemas crônicos de transporte, mas como todas as outras ferrovias do Brasil, ela também foi desativada há alguns anos.
Trem de Mangaratiba x A Viagem de Chihiro
Pedra do Urubu
Desde o dia que chegamos em Mangaratiba avistamos a distância a Pedra do Urubu, o maior morro da região e, pra consternação dos nossos anfitriões, ficamos com vontade de subir até lá.
Foi somente no nosso último fim de semana na cidade, abençoado com uma raro dia ensolarado, que fizemos nossas mochilas e fomos explorar a área.
Seguimos esse caminho do Wikiloc e não acho que seja uma trilha pra iniciantes. A subida é íngreme e o mato estava alto, vários trechos passamos com a grama na altura do peito, ainda assim indicio muito para os mais experientes.
Aos poucos enquanto subimos o caos da praia vai ficando distante até restar somente o vento. Depois de algumas horas chegamos ao topo, onde ficam somente os pássaros e as antenas de transmissão, a vista é completamente surreal. De lá é possível enxergar a Serra do Piloto em sua imensidão, a Restinga de Massambaba e entender a formação geológica da baía onde Mangaratiba se localiza.
A grama forma um ambiente único com milhares de borboletas, vespas e besouros passando a toda velocidade, é quase um mundo à parte, distante de tudo que acontece no nível do mar. Um lugar único.

Praias
Vou adicionar esse último capitulo porque seria estranho fechar um texto sobre praia sem falar... Das praias.
Mangaratiba tem sem dúvida muitas opções de Praias incríveis. Nossa hospedagem ficava localizada na Praia do Apara, uma pequena porção de areia de onde partem Jet-skies e pequenos barcos, lugar tranquilo pra passar o dia e com uma vista linda do nascer do sol. Sua vizinha a Praia Brava também é muito bonita e fica localizada dentro de um condomínio bem cuidado.
Porém nossa favorita foi uma prainha escondida na beira do trilha do trem, a Praia de Filgueiras não tem nenhum tipo de infraestrutura, é uma pequena área de areia com pedras enormes rodeada por mata, fizemos uma passagem curta por lá, mas a vontade era de passar o dia explorando.

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Esse foi nosso mês na belíssima Mangaratiba, saímos com gosto de quero mais, nos despedindo do mar e daquela vista surreal.
Seguimos viagem para Lumiar, pequena vila na cidade de Nova Friburgo, onde iremos nos refugiar do caos da festa de fim de ano.










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